Volta para Histórico

  Brasília, Patrimônio Cultural da Humanidade

O que existe em comum entre a Praça Vermelha e o Palácio de Versailles, na França? Entre o Parque Nacional do Iguaçú e a cidade do Vaticano? Entre a estátua da Liberdade em Nova York, EUA, e o Santuário de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo? Entre as Pirâmides do Egito e Machu Pichu, no Peru? Entre Brasília e o Taj Mahal, na Ìndia? Entre o Parque Nacional de Garamba, no Zaire e o Centro Histórico de Olinda?

Esses bens, entre centenas de outros, integram a Lista do Patrimonio Mundial, Cultural e Natural. da UNESCO(*). São sítios e monumentos de valor excepcional e interesse universal, cujo desaparecimento se constituiria em enorme perda para toda a humanidade.

Os antigos gregos consagravam as SETE MARAVILHAS DO MUNDO. Entre elas o Farol de Alexandria, o Colosso de Rodes e os Jardins Suspensos da Babilônia. Essas maravilhas,obras únicas e inigualáveis, desapareceram quase sem deixar vestígios.

Com o objetivo de preservar, para as gerações futuras, as maravilhas produzidas ao longo da existência da Terra e da história da humanidade, a UNESCO instituiu a Lista do Patrimonio Mundial, Cultural e Natural.

(*) UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

(do boletim informativo do setor de produção/IBPC/MINC - nov/dez 1992)

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A DECISÃO DA UNESCO

11a. REUNIÃO ORDINÁRIA DO COMITÊ DO PATRIMÔNIO MUNDIAL

Paris - 7 de dezembro de 1987

(trechos do relatório enviado ao governador José Aparecido de Oliveira, por Osvaldo Peralva, Secretário de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal)

...Falou então, em nome do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), Léon Presssouyre, professor de Arqueologia da Universidade de Paris I (Sorbonne) e Relator do processo de Brasília.

...Havia de inicio dois elementos negativos. O primeiro consistia na própria inovação nos conceitos da entidade, pois até o momento somente bens culturais seculares ingressavam na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO...O segundo é que a legislação do Distrito Federal, de preservação das características arquitetônicas e urbanísticas da cidade, reclamada pelo ICOMOS, foi considerada insuficiente.

...O parecer do professor Pressouyre, acompanhado de imagens da cidade monumento, terá causado funda impressão nos membros do Comitê. Quanto à insuficiencia das leis, a delegação brasileira chamou a atenção do ICOMOS para o Ofício n. 1585/87, de 14 de outubro de 1987, em que se esclarecia "...o anteprojeto de lei de preservação estudado para todo o Distrito Federal deverá estar no Congresso Nacional, através da Presidência da República, garantindo as linhas de Brasília como bem cultural universal".

Esse esclarecimento removeu o obstáculo.

Agora tinha chegado a vez de o plenário se pronunciar. O Presidente do Comitê, o canadense J. D. Collinson, franqueou a palavra. Aí a chefe da representação dos Estados Unidos, Sra. Susan Recce, opôs-se à inclusão de Brasília, por entender que assim se consagraria prematuramente determinado tipo de arquitetura.

Além disso,invocou o parágrafo 29 das "Orientações para a aplicação da Convenção do Patrimônio Mundial", no qual se propunha que o exame das novas cidades do século XX ficasse "adiado até que o conjunto das cidades históricas tradicionais, pertencentes ao patrimônio da humanidade e que constituem sua parte mais vulnerável, fossem inscritas na lista do patrimônio mundial".

O relatório final do Comitê afirma que dois outros delegados exprimiram igual preocupação a respeito da inclusão de uma cidade nova na lista do Patrimônio, com base no mesmo dispositivo das "Orientações".

...Replicando à delegada norte-americana, o professor Pressouyre disse que a questão era outra: tratava-se de proteger uma obra singular, moderna, a única cidade construída, neste século, a partir do nada, ex-nihilo, para ser a capital de um país, constituindo-se assim em magnífico exemplo histórico. Lembrou que a iniciativa de Le Corbusier, na Ìndia, com a construção de Chandighârd para servir de capital ao Punjab, era diferente, pois não se completara e era uma capital regional, não nacional.

Pelo silencio que se seguiu,tornou-se claro qeu seu argumento foi bem acolhido e que a assembléia plenária aprovara, por consenso, como é usual nessas reuniões, o ingresso de Brasília no Patrimônio Mundial. Mas o Presidente insistiu, querendo saber se alguém mais desejava fazer uso da palavra, pois de acordo com o artigo 14, inciso 9, da Convenção da UNESCO, adotada em 16 de novembro de 1972, em Paris, "as decisões do Comitê são tomadas por maioria de dois terços do membros presentes com direito a voto". O representante mexicano, Embaixador Miguel León Portillo, ergueu o braço e também se declarou favorável à inclusão de Brasília, destacando outro aspecto de sua edificação: o de pólo irradiador de desenvolvimento, a partir do centro do imenso território brasileiro. Por fim em tom emocionado, o Embaixador do Brasil junto à UNESCO, escritor Josué Montello, fez referência às tres fases da cidade - o deserto, de onde surgiu; a cidade edificada, de nossos dias; e o bem cultural que se procurava resguardar. Afirmou: "Temos preservado, para o presente, monumentos do passado. Agora, ao contrário, pensamos em preservar para o futuro um monumento do presente".

Estava encerrada a discussão. Brasília acabava de ingressar no Patrimônio Cultural da Humanidade, com a aprovação unânime dos seguintes 21 membros que compôem o atual Comitê do Patrimônio Mundial: Argélia, Austrália, Brasil, Bulgária, Canadá, Cuba, Estados Unidos da América, França, Grécia, Ìndia, Itália, Líbano, Malawi, México, Noruega, Paquistão, Sri Lanka (Ceilão), Tanzânia, Tunísia, Turquia e Yemen.

...Havia em pauta 61 propostas de inscrição na lista do Patrimônio Mundial, a partir de recomendações formuladas pelo ICOMOS e pelo UICIN.

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O PARECER DE PRESSOUYRE

Em maio de 1987, o professor Léon Pressouyre deu um parecer favorável à inclusão de Brasília na lista do Patrimônio Cultural Mundial, com a condição de que fosse providenciada para assegurar, no Distrito Federal, as características arquitetônicas e urbanísticas da cidade. Um decreto lei do governador, nesse sentido, foi baixado em 14 de outubro daquele ano.

Em 7 de dezembro do mesmo ano, o professor Pressouyre fez a defesa de Brasília, nos termos desse parecer, que foi aprovado por unanimidade.

CONSELHO INTERNACIONAL DE MONUMENTOS E SÍTIOS - ICOMOS

Lista do Patrimônio Nacional n. 445
Identificação
Bem proposto: Conjunto representativo do Patrimônio Histórico, Cultural, Natural e Urbano de Brasília.
Local: Distrito Federal
Estado-Membro: Brasil
Data: 31 de dezembro de 1986

Recomendação do ICOMOS

Que seja adiada a inscrição do bem cultural proposto na lista do Patrimônio Mundial.

Justificativa: (o parecer de Pressouyre)

Os princípios do urbanismo do século XX, tais como foram expressos em 1943, na Carta de Atenas ou em 1946, no Modo de Pensar o Urbanismo, de Le Corbusier, foram raramente evidenciados na escala de uma capital; as únicas exceções notáveis são as de Chandigârh, onde Le Corbusier, nomeado conselheiro do governo de Punjâb para assuntos de arquitetura, em 1950, trabalhou durante vários anos em colaboração com Pierre Jeannneret, Maxwell Fry e Jane Drew,e, principalmente a da capital do Brasil, Brasília, criada ex nihilo, no centro de um distrito federal de 5814 km2, a partir de 1956.

A idéia de fundar uma capital, no centro do Brasil, é antiga, tendo sido expressa em diversas ocasiões desde o fim do século XVII. Em 1922, quando da comemoração do Centenário da Independência, a escolha da retgião Centro-Oeste como local da futura capital foi simbolizada pela "Pedra Fundamental", erguida perto de Planaltina, a alguns quilômetros ao nordeste da atual Brasília.

Foi Juscelino Kubitschek, eleito Presidente da República em 1955, que fez da criação da capital um símbolo de sua política de valorização do espaço brasileiro, da expansão industrial e de grandes obras.

Já em 1956, o Presidente Kubitschek encarregou uma comissão de escolher o lugar exato da cidade, e um organismo executivo, a NOVACAP, de realizar a compra dos terrenos e a construção. No mesmo ano, Oscar Niemeyer foi nomeado Diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, e Lúcio Costa ganhava o concurso aberto para a escolha do Plano de Brasília.

Essas escolhas tornavam a reunir uma equipe que já tinha dado provas de seus trabalhos: de 1936 a 1943, Costa e Niemeyer tinham colaborado na construção do Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, quando também fora consultado Le Corbusier para essa grande realização.

A definição de um ideal urbano, baseado na separação das funções, na abertura de grandes espaços naturais e no traçado de grandes vias de circulação, bem diferentes da rua tradicional, estava pressuposta pela formação doutrinal de Costa e Niemeyer, mas a sua própria evolução deixava prever a rejeição do funcionalismo primário do "estilo internacional" em benefício de soluções mais adaptadas à situação brasileira: em relação a isso, devemos lembrar que Niemeyer já construíra, de 1942 a 1944, a pedido de Kubitschek, o conjunto da Pampulha, depois de ter criado em colaboração com Costa, o pavilhão brasileiro da Exposição de Nova York, de 1939.

O Plano Piloto de Brasília, possuidor de uma grande força de expressão, de autoria de Lúcio Costa, nasceu, como ele mesmo diz, "do gesto inicial que designa um lugar e dele se apodera: dois eixos que se cruzam em angulo reto formando uma cruz". Esse sinal foi, depois, adaptado à topografia, à inclinação natural do terrreno e a uma melhor orientação: os braços de um dos eixos foram curvados.

O Plano de Brasíla não evoca uma cruz, mas sim um pássaro gigante voando em direção ao sudeste. O eixo norte-sul, sem curva, define o traçado da grande via de comunicação rodoviária ao longo da qual alinham-se zonas residenciais, articuladas em superquadras, tendo, cada uma delas, uma semi-autonomia graças a suas áreas comerciais e de lazer, seus espaços verdes, suas escolas, igrejas, etc...

Os imóveis, com seis andares são construídos sobre pilotis, segundo os princípios tão caros a Le Corbusier.

O eixo perpendicular leste-oeste liga as quadras administrativas e forma o gande eixo monumental da nova cidade que se tornou, efetivamente, capital, em 1960. Oscar Niemeyer, ali, ergueu seus edifícios mais célebres, notáveis pela pureza de formas e com um caráter monumental evidente, nascido dos sábios contrastes entre construções horizontais e verticais, volumes retangulares e superfícies curvas, materiais em estado natural e o toque acetinado de certas construções.

Entre as mais belas realizações da paisagem urbana de Brasília, podemos citar, ao redor da Praça dos Tres Poderes, o Palácio do Planalto ou Palácio do Governo, o Congresso, com seus dois arranha-céus, gêmeos, ladeados pela cúpula do Senado e a da Câmara dos Deputados, essa última virada com a boca para baixo, e o Palácio do Supremo Tribunal.

Outras citações com uma rara qualidade plástica ainda podem ser citadas, tais como a Esplanada do Ministérios, a Catedral, com seus dezesseis parabolóides de concreto, com 40 metros de altura, o Memorial JK, o Teatro Nacional, etc...

A criação de Brasília, pelo grande desafio, pela ousadia do projeto, a amplidão dos meios empregados, é, incontestavelmente, um fato da maior importancia na história do urbanismo.

A partir de 1960, com o fim do mandato presidencial de Kubitschek, e sobretudo a partir de 1964, com a instauração de uma nova política e a dispersão da equipe de arquitetos, a jovem capital do Brasil conheceu sérias dificuldades das quais, ainda hoje algumas não foram superadas.

Kubitschek, Costa e Niemeyer previram de 500.000 a 700.000 habitantes, devendo as cidades satélites receber a população excedente. Hoje Brasília possui uma população favorecida de 300.000 habitantes e uma grande massa populacional, muitas vezes em trânsito, que se distribui nas sete cidades satélites, mas também nos arredores miseráveis que apareceram em detrimento do plano de 1956-1957.

Na ausência de qualquer plano regulador e de um código de urbanismo, as normas definidas por Costa e Niemeyer foram transgredidas na maior desordem: edifícios mais altos que deveriam, em alguns setores, construções em espaços livres, modificações na rede rodoviária, etc..., alteraram muito seriamente uma paisagem monumental possuidora de uma grande qualidade inicial.

Essa deterioração e as ameaças que pesam no desenvolvimento de Brasília estimularam Aloìsio Magalhães para que se criasse, em 1981, em grupo de trabalho para a preservação do patrimônio histórico e cultural de Brasília.

Esse grupo reuniu uma documentação importante e após uma reflexão prospectiva profunda definiu tres zonas de proteção propostas para inscrever Brasília na lista do Patrimonio Mundial.

    • uma zona de proteção absoluta cobrindo o Plano Piloto de Lúcio Costa;
    • uma zona tampão onde a predominância dos espaços verdes estaria garantida;
    • uma zona periférica, incluindo o lago artificial e sua margens, quase que inteiramente construídas com conjuntos residenciais. Não poderia a proteção ser mais flexível.
    • o grupo de trabalho também propôs inscrever as testemunhas históricas do nascimento de Brasília, isto é, as cidades e o meio-ambiente tradicional da periferia (Planaltina, Brazlândia e oito fazendas antigas) assim como os acampamentos de operários, vestígios comoventes mais frágeis da grande época da construção da capital (1957-1960).

O ICOMOS, ao mesmo tempo que expressa um parecer em princípio favorável à inscrição de Brasília na lista do Patrimônio Mundial, estima que essa inscrição deva ser adiada até que medidas mínimas de proteção garantam a salvaguarda da criação urbana de Costa e Niemeyer.

A adoção do Plano Piloto de Costa deve entrar para a sua fase definitiva em março de 1987 e ser submetido às instâncias concernentes no decorrer do mesmo ano.

Nenhuma data precisa é fornecida no que se refere às medidas de proteção das zonas-tampão, para as quais, evidentemente, os anseios do grupo de trabalho não representam garantia suficiente.

ICOMOS, maio de 1987

Professor Léon Pressouyre (Sorbonne I)

Relator junto ao Conselho do Patrimonio Mundial

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OS BENS BRASILEIROS QUE INTEGRAM A LISTA DO PATRIMÔNIO MUNDIAL:

- A Cidade Histórica de Ouro Preto - MG

- O Centro Histórico de Olinda- PE

- O Parque Nacional de Iguaçú - PR

- Os Sítios Históricos e Arqueológicos das Missões Jesuítas dos Guarani - RS

- O Centro Histórico de Salvador (Pelourinho) - BA

- O Santuário de Bom Jesus de Matozinhos em Congonhas do Campo - MG

- Os Sítios Arqueológicos de São Raimundo Nonato no Parque Nacional da Capivara - PI

- O Conjunto Urbanístico, Arquitetônico e Paisagístico de Brasília - DF



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